A primeira vez que decidi ir para o campo por 2 dias... Saí de casa a pensar: vou inspirar ar puro, ficar no silêncio, rodeada de natureza.
E lá fui eu.
Cheguei ao campo, instalei-me e fui passear. Tirei várias fotos e, ao longe, conseguia ouvir as ventoinhas eólicas, vruum vruumm.
Chegou a noite e o frio já se instalava. Pensei: vou ligar a lareira, já que estou no campo, vou fazer como os do campo.
Para acender a lareira demorei quase 2 horas. Os troncos não pegavam, gastei quase todas as acendalhas e ainda fui à rua buscar ramos para conseguir fazer fogo. Mas porque é que isto não acende?
Lá finalmente consegui, mas o que é que fui fazer...
Fui à casa de banho e, quando regressei à sala, um nevoeiro cerrado cobria tudo. Mal conseguia ver o sofá, os olhos ardiam, o cheiro a fumo era tão forte que tossia sem parar.
Fui a correr abrir as portas e as janelas, e fugi para a rua.
Após uns largos minutos, enquanto enregelava lá fora, pensava: na cidade nunca me aconteceu isto.
Depois de o nevoeiro desaparecer, o fogo na lareira já tinha pegado e a sala começava a aquecer. Mas, gelada como estava, fui para o quarto, onde o aquecedor ligado foi a minha salvação.
Mas a desgraça continuou...
Se de dia as ventoinhas mal se notavam, à noite o vruummm era ainda maior. Mas pensei: estou no campo, bora relaxar, esquece lá as ventoinhas.
Depois comecei a ouvir os carros a passar ao longe, na autoestrada, a alta velocidade. E de novo disse para mim mesma: estás no campo, relaxa.
Estava quase a adormecer quando passaram carros mesmo junto à minha janela, 1, 2, 3, e eu ali a contá-los.
Mesmo assim, sorri e disse para mim mesma: isto é o campo.
Passado um pouco, já conformada com a vida do campo, começou a sinfonia. Cães de todos os lados combinaram ladrar àquela hora da noite, num barulho infernal.
Pensei: bolas, na cidade não há tanto barulho, há mais pessoas, carros, animais, e mesmo assim durmo sossegada à noite.
Mas lá consegui adormecer.
No dia seguinte, quando acordei, todo o corpo me doía, o colchão era horrível e, para completar o quadro, a casa inteira tresandava a fumo.
Fui ao terraço e sentei-me no frio matinal. Soube muito bem, ar gelado e fresco, em vez do cheiro a fumo lá dentro.
Sorridente, lá me fui vestir para passear pelo campo.
O dia correu bem. Visitei lugares lindíssimos e passeei bastante. O tempo voou sem dar por isso, à descoberta de sítios nunca antes percorridos. Até esqueci todas as atribulações da noite anterior.
Quando regressei a casa, pensei: vou arriscar e fazer a lareira de novo. Já devo ser praticamente uma perita, vai correr muito melhor do que ontem.
Assim fiz...
Mas que péssima ideia!
Depois de 3 idas à rua para apanhar ramos e raminhos, gastei todas as acendalhas, cheguei a meter papel lá dentro, e os troncos, nada, não pegavam.
Como é que as pessoas fazem isto acender?
Isto tem assim um botão on/off? Ou é só para enfeitar?
Finalmente pegou fogo, e lá se instalou de novo o nevoeiro. Que desgraça, para que é que fui acender aquilo outra vez.
O que me passou pela cabeça? Lá fui de novo para o frio, tudo aberto, e eu a pensar: daqui a pouco ainda me entra aqui alguém, uma casa à beira da estrada toda escancarada, ainda sou assaltada...
Fechei a casa e fui para o quarto. A escuridão, com o resto do nevoeiro que ainda pairava na sala, começou a espalhar-se pelo resto da casa. Fui à casa de banho, olhei e pensei...
Credo, parecia uma cena de filme de terror, só faltava o Freddy Krueger ou aquele gajo de Sexta-feira 13 aparecerem, porque o cenário já estava montado.
Entrei no quarto e fechei-me lá dentro à chave.
E pensei: se a maçaneta rodar, salto pela janela.
Foi então que os barulhos começaram, as ventoinhas, os carros ao longe e mesmo junto à casa, os cães, e a juntar a tudo isto, os próprios estalidos e ruídos da casa. Estava aterrorizada.
Pensei: então venho para o campo para relaxar e estou escondida no quarto, com medo da escuridão. O silêncio que pensei encontrar não existe.
O ar puro, esse já era, porque tudo cheirava a fumo da lareira. Até eu tresandava a fumo, mas não tinha coragem de ir à casa de banho tomar um duche.
Então...
À 1h da manhã disse: estou farta, vou-me embora! Furiosa, peguei nas minhas coisas, vesti o casaco por cima do pijama. Abri a porta a torcer para não estar ninguém do outro lado e, a correr, acendi todas as luzes. Espreitei pela janela para ver se andava alguém na rua e voei para o carro.
Acelerei dali para fora. Às 3h já estava em casa, duche tomado, no quentinho e conforto da minha cama, e por instantes ouvi... nada!
Oh, que maravilha, o "barulho" da cidade!










Estou partido a rir!!! Imagino bem a tua luta para acender a lareira :-)... Porque nao telefonaste a um amigo para tedar o segredo do lume?
ResponderEliminarNa próxima vai ter que ser, ainda pesquisei no Google mas uma coisa é a teoria e outra a prática.
Eliminar🤣😂🙃
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EliminarExcelente! Escangalhei-me a rir. Um texto bem escrito e cheio de humor. É mesmo assim. Quando temos capacidade de nos rirmos das nossas "figurinhas" nem tudo vai mal
ResponderEliminarA faculdade de rirmos de nós mesmos é saudável e do melhor. Obrigada
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